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Sábado, 16 de junho de 2007, 11h59 
Casas noturnas ocultas viram mania em Tóquio
 
The New York Times
Muitas casas noturnas e bares ficam em becos escondidos de Tóquio
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As casas noturnas ocultas se tornaram a grande mania entre uma certa categoria de moradores de Tóquio - grandes adeptos do anime que já não se satisfazem com noitadas em casas noturnas ao estilo ocidental.

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Repletos de nostalgia reflexiva e pós-moderna por uma Tóquio anterior à Sony, esses retiros de difícil localização parecem tão íntimos quanto salas de estar, e ocasionalmente não são muito maiores do que isso.

Trata-se de lugares que não fazem publicidade por meio de panfletos ou divulgação viral via Mixi - a resposta japonesa ao MySpace; em um desdobramento estranho se levarmos em conta que a sociedade do Japão parece viver em conexão intravenosa com os aparelhos mais modernos, a única divulgação que empregam é via contato pessoal entre os freqüentadores.

Tóquio, especialmente depois do anoitecer, é uma cidade onde a navegação é notoriamente difícil. Com suas ruas tortuosas, labirínticas, a cidade representa um desafio até mesmo para os mais experientes taxistas.Muitos ciclistas usam aparelhos de GPS em seus guidões. Assim, imaginem a dificuldade de procurar por restaurantes, bares e clubes escondidos em becos sem nome, edifícios de apartamentos sem identificação e escadarias de porão iluminadas apenas por luzes vermelhas.

Os bares discretos e de localização remota são há décadas um traço da cultura japonesa. Antes da Segunda Guerra Mundial, Tóquio abrigava imenso número de pequenos bares conhecidos como "nomiya" (bares de balcão), com espaço para apenas seis ou sete banquetas. Por trás do balcão, o proprietário exercia seu papel como confidente e amigo dos fregueses regulares. Quando a cidade foi reconstruída, a maioria desses lugares terminou demolida, em favor de lugares maiores, mais vistosos e mais ocidentalizados.

Agora, uma classe mais jovem e criativa, nascida no pós-guerra, está retomando a cultura dos nomiya - mas com traços decididamente modernos.

"Não saio muito, mas quando o faço, gosto de ir a esses lugares pequenos, secretos", diz o artista contemporâneo Takashi Murakami enquanto dá alguns retoques a uma das esculturas baseadas em anime que representam seu trabalho mais característico. "Existe algo de muito familiar e pessoal nesses lugares, e eu os acho reconfortantes. Podem ter design moderno, mas o sentimento que prevalece é mais semelhante ao do Japão tradicional".

Para as pessoas que desejam trocar seus trajes de esporte por um quimono, essa elegância retrô surgiu em parte como reação à inchada e cosmopolita vida noturna da cidade, que continua a ser dominada por imensos clubes de dança com nomes reveladores de aspirações americanas, como Harlem, Air e Unit.

Uma das casas mais populares hoje em dia é o Womb, em Shibuya, que atrai milhares de pessoas vestidas em camisetas quase idênticas e tênis de edições limitadas, nas noites de sexta-feira. A música predominante é o techno, a iluminação é azulada e uma gigantesca bola espelhada ao estilo das discotecas, além do onipresente lounge com suas banquetas de vinil branco, dá o tom da decoração.

Já os bares ocultos, em contraste, são tão japoneses quanto as gueixas ou o toro. Alguns existem desde sempre, sem alterações, desde que foram construídos como bordéis, antes da guerra, e por algum motivo escaparam à demolição generalizada promovida pelos incorporadores de imóveis.

Experimentar a tradição japonesa como forma de subverter estereótipos é também um dos temas dominantes na arte contemporânea do país. Na galeria Mizuma, em Meguro, e no museu de arte Mori, artistas em ascensão como Hisashi Tenmyouya, Matoko Ainda e Fuyuko Matsui usam o Nihonga ¿ um estilo tradicional de pintura que emprega pigmentos minerais e carvão - de forma que empresta grande consciência social aos seus desenhos de flores, pássaros e montanhas.

Essa onda de afeto pelos bares ocultos talvez tenha origem no varejo. Mais de uma década atrás, uma etiqueta de moda jovem chamada A Bathing Ape abriu uma loja sem identificação em uma parte deserta de Tóquio. A loja e seus produtos se tornaram sucesso instantâneo na cidade obcecada por moda e saturada de marcas. Cópias não param de surgir.

"Todo mundo sabe que as melhores coisas de Tóquio acontecem em salinhas localizadas em uma rua tranqüila", disse Nicole Fall, cuja especialidade é acompanhar tendências e recentemente decidiu criar um serviço de acompanhamento, Bespoke Tokyo, para ajudar turistas a encontrar os tesouros secretos da cidade. A Not Found, uma loja de roupas que só recebe clientes com entrevista marcada, inaugurada no começo do ano, é um dos mais recentes exemplos da tendência. Caminhando por uma das ruas principais do bairro de Azabu Juban, perto de Roppongi, você talvez tropece na loja. Da calçada, o edifício que abriga parece só mais um prédio de escritórios, sem placas de identificação. O espaço, ínfimo, exibe apenas algumas peças de roupas penduradas por trás de vitrines de vidro blindado, e foi aberto por um homem de 33 anos, fundador de uma empresa de tecnologia, como uma espécie de closet de luxo para seus amigos mais próximos.

"Imagine tentar encontrar as palavras Not Found no Google", diz Fall. "Existem cerca de um milhão de retornos. A camuflagem é brilhante. Os japoneses gostam de hobbies, e são obsessivos. Viajam a uma pequena cidade só para comer uma espécie de aspargo ou cogumelo que está à venda apenas alguns dias por ano, porque são alimentos sazonais".

Os bares ocultos, claro, apelam ao mesmo desejo de compartilhar de segredos. São tão exclusivos quanto um tênis de edição limitada, e seus endereços são protegidos pelos fregueses como se fossem senhas bancárias.

Isso talvez explique a imensa popularidade do Casba, uma casa agitada em Shibuya que atrai a elite da moda, como Rei Kawakubo e Marc Jacobs. Da calçada, não se percebe que aquilo é uma casa noturna; a única pista é uma pequena placa no sopé de uma escadaria escura.

Os bares, restaurantes e clubes ocultos de Tóquio são intencionalmente difíceis de encontrar. Eis uma pequena amostra das centenas de casas ocultas por trás de portas sem placa e ao fundo de escadarias sombrias. Se possível, ligue para obter informações detalhadas sobre como chegar e, em alguns casos, faça reservas que garantam sua admissão.

Bares
A filial do Le Baron, ponto de encontro da moda parisiense, em Tóquio (Aoyama center Building, Minami-Aoyama Minatu-ku; 81-3-3408-3665; www.lebaron.jp), é uma das poucas casas de dança íntimas da cidade. Um dos proprietários é o estilista Marc Newson, e a decoração é de um exagero kitsch à moda de bordel, com couro característico de clubes masculinos, sofás e muito vermelho burlesco.

À sombra dos edifícios elevados e dos trilhos do trem suspenso de Shibuya fica o Nonbeiyokocho, ou beco dos bêbados (1-25-10 Shibuya, Shibuya-ku), um aglomerado de pequenos bares de beco com espaço para cinco a 10 pessoas cada um. Não existe endereço exato, por isso olhe pelo olho mágico antes de entrar. O Piano Bar (81-3-5467-0258) tem paredes cobertas de veludo vermelho e um pequeno piano. O Tight Bar (81-3-3499-7668) é um lounge retrofuturista com, lajotas brancas e janelas redondas, com um ar de era espacial. E o Shisui (81-3-3407-2371) é um bar que lembra a era anterior à guerra, com um balcão de madeira desgastada e uma sala VIP popular junto aos skatistas, no piso superior.

O mercado de verduras e frutas da rua Hong Kong oculta uma série de tradicionais bares de pequeno porte, entre os quais o Oiwa (3-22-2 Koenji Kita north; 81-90-9348-1050), no qual o proprietário, um boêmio da velha guarda com cara de Jack Kerouac, serve coquetéis tradicionais como o shochu e leite de soja, e prepara macarrão e omeletes em um pequeno fogareiro.

O Casba (Wakamatsu Building B1F 2-14-15, Higashi Shibuya-Ku; 81-3-5467-5402), um lunge de porão decorado em estilo retrô e localizado em uma rua nada chamativa, se anima depois das duas da manhã quando chega a turma da moda e design.

Restaurantes
O Cha Cha Hana (1-1-1 Kabukicho, Shinjuku-ku; 81-3-5292-2933) é um restaurante animado, localizado em uma casinha que fica no final de um caminho pavimentado com pedras. A culinária envolve novidades como mandioca japonesa grelhada e gema de ovo com lascas de peixe (por 630 ienes ou US$ 5,15) além de bolinhos de batata recheados e servidos ao molho. Um jantar para duas pessoas, acompanhado de saquê, sai por cinco mil ienes.

Já o Higashiyama Gantan (Sun Royal Higashiyama 109, 1-8-6 Higashiyama, Meguro-ku; 81-3-3791-4807) requer que você bata à porta de um edifício de apartamentos revestido de pastilhas brancas. O bar tem um estilo industrial, minimalista, mas as salas privadas são populares entre os adeptos da moda e dos tênis exclusivos, que elogiam muito o sashimi e o techan nabe (um cozido denso). Um jantar para dois sai por cerca de 10 mil ienes.

O discreto Sushi Kanesaka (8-10-3 Ginza, Chuo-ku; 81-3-5568-4411) é muito difícil de encontrar e serve de ponto de encontro ao artista Takashi Murakami. Basta uma mordida no peixe de primeira qualidade e no arroz de textura perfeita do sushiman e proprietário Shinji Kanesaka, 35, para entender o motivo. Jantar para dois, sem bebidas, por 20 mil ienes.

Ocultos à luz do dia
A Mizuma Art Gallery (2F, Fujiya Building, 1-3-9 Kamimeguro, Meguro-ku; 81-3-3793-7931; www.mizuma-art.co.jp) é o lugar ideal para ver a nova escola de artistas contemporâneos, entre os quais Hisashi Tenmyouya e Makoto Aida, que subvertem a arte tradicional japonesa para comentar a situação social.

A Not Found é tão discreta que a única maneira de encontrar essa loja do tamanho de um armário, que vende grifes japonesas como Mastermind e Foundation Addict, é percorrer as ruas de Azabu Juban e perguntar a um transeunte que conheça bem o bairro.

Se você não conseguir encontrar a Tóquio oculta
Não se desespere. Pelo preço certo, há serviços que o conduzirão aos lugares secretos, impossíveis de encontrar. A Bespoke Tokyo (03-3462-2663, www.bespoketokyo.jp), dirigida por dois britânicos expatriados, cobra US$ 84 por hora (mínimo de três horas).

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME


 
The New York Times