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Sábado, 23 de junho de 2007, 13h44 
Síria: uma viagem a um passado histórico e fascinante
 
Seth Sherwood
 
The New York Times
Colunas e templos em ruínas em Palmira, um antigo centro comercial da rota da Seda, na Síria
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Quando embarquei no vôo da Syrian Air, em Paris, a única coisa que sabia era que Damasco alega ser a mais antiga cidade habitada do planeta, e que alguns dos meus escritores prediletos - Mark Twain, Gustave Flaubert e Agatha Christie - haviam se deixado encantar pelo passado folclórico e pelas lindas paisagens do país.

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Meus poucos conhecidos que haviam arriscado visitas a despeito da reputação maculada da Síria garantiram que não haveria problema. O conselho que me deram foi visitar diretamente a mesquita omaíada em Damasco e me abastecer sempre que pudesse do excelente carneiro grelhado, baba ganoush e o suco de romãs que caracterizam a culinária do país. Também disseram que era melhor deixar meus preconceitos no controle de passaportes.

O país que descobri, além de amistoso e em larga medida isento de crimes e das dificuldades a ele relacionadas, demonstrava até certos vislumbres de abertura do Ocidente, depois de décadas de controle cerrado. Sob o comando do presidente Bashir Assad, 41 anos, educado em Londres, a Síria criou bancos privados, removeu algumas antigas barreiras a importações e aprovou medidas que permitem que estrangeiros detenham propriedades no país. Um hotel Four Seasons foi inaugurado em Damasco com grande pompa, em 2005, e um Intercontinental de cinco estrelas está em construção.

No centro da capital, um painel formado por dois outdoors gigantes simboliza as mudanças em curso. Um lado alardeava o terceiro fórum anual de investimento no mercado turístico; do outro, estava a conhecida figura barbada do coronel Sanders, cercada de texto em árabe, anunciando a chegada da cadeia de restaurantes Kentucky Fried Chicken à Síria.

"Por mais que você recue, ao passado mais remoto, sempre existiu uma Damasco", escreveu Twain depois de visitar a cidade, na década de 1860. "Para Damasco, os anos são apenas travessuras passageiras do tempo. A cidade mede o tempo não em dias, meses e anos, mas pelos impérios que ela viu surgir e despencar em ruínas. Damasco desfruta de uma certa forma de imortalidade".

Não se pode acusá-lo de dourar a situação. Os babilônios invadiram a cidade no reino de Nabucodonossor, seguidos pelos persas de Dário e Xerxes. Os romanos capturaram o país no ano 63AC, e Marco Antônio conduziu uma campanha contra o reino dos partos no território da Síria. Foi na estrada para Damasco, em um episódio famoso, que Saulo, um viajante judeu, foi ofuscado por uma luz, o passo inicial em sua conversão ao cristianismo e na adoção de uma nova identidade como Paulo, o Apóstolo. E foi na estrada para Damasco que, seis séculos mais tarde, o profeta Maomé decidiu interromper sua jornada, se recusando a entrar na cidade, alegando que "o homem só deve entrar uma vez no Paraíso". Nos séculos seguintes, egípcios, otomanos e franceses ocuparam a cidade, antes que ela viesse a se tornar capital da Síria quando da independência do país, em 1946.

Hoje, a rota para a mesquita omaíada, do século VIII, que serve como coração espiritual e histórico da Cidade Velha de Damasco, parece estar marcada em um velho e puído mapa como os que orientam visitas às casas dos astros em Hollywood. Primeiro você passa por um arco romano, logo ao sul da tumba do renomado guerreiro islâmico Saladino, que derrotou Ricardo Coração de Leão nas Cruzadas. A seguir, cruza os vastos portões da mesquita, cujas imensas muralhas de pedra repousam sobre uma antiga igreja bizantina, a qual recobre um velho templo romano a Júpiter, por sua vez erguido no terreno que um dia abrigou um desaparecido templo aramaico. Por fim, depois de uma rápida corrida pelo pátio, passando pelo mausoléu de João Batista, você chega à tumba de Hussein, neto de Maomé e mártir venerado pelos muçulmanos xiitas.

Na tarde em que fiz minha visita, a sala de pedra ressoava com os ecos das contas de oração, com os versos do Corão murmurados e com os suspiros dos predicantes. Os homens se arremessavam ao chão, encostando as testas à pedra da tumba. Meninas em idade escolar e velhas desdentadas e com os rostos recobertos de rugas choravam descontroladamente, se agarrando às paredes.

Lugares que ostentam um vínculo poderoso com diferentes tipos de fé estão espalhados por todos os quadrantes de Damasco. Em uma rua pequena e silenciosa do bairro cristão da Cidade Velha, encontrei a Igreja de Ananias, o homem que curou São Paulo da cegueira e o batizou como cristão. Ainda que não houvesse fiéis presentes no momento de minha visita, bilhetes e oferendas de visitantes haviam sido deixados nas brechas entre as pedras. "Limpo e sereno por 60 dias", eu li, em inglês, em um chaveiro de um verde berrante que alguém deixara por lá.

Completamente diferente e ainda mais comovente é a antiga sinagoga judaica reconstruída no Museu Nacional, uma cápsula do tempo evocativa contendo relíquias de cidades esquecidas da Era do Bronze, porções de fortes romanos desaparecidos e outros monumentos fugazes retirados das areias da Síria.

Encontradas na cidade-estado de Dora Europos, um importante centro de comércio que os persas devastaram no século III, as imensas muralhas de pedra da sinagoga brilham com imagens de rabinos do templo, estranhos animais, mulheres de olhar triste, pergaminhos, menorás, anjos alados, cavalos dançarinos e nômades de olhar sereno vagueando pelo deserto.

"É espantoso encontrar uma sinagoga decorada por pinturas", diz Michel al-Maqdissi, o diretor de escavações arqueológicas do museu, falando em francês. Um pequeno rádio parecia ocupar todo o espaço de seu escritório com uma ária de ópera. "A religião judaica proíbe a representação pictórica humana, como o islamismo. Aceita elementos decorativos, mas não em forma humana. Por isso essas peças são tão únicas". Do lado de fora, as vielas da Cidade Velha pulsavam, repletas de energia. Mulheres de véus escuros conduziam adolescentes - algumas usando mantos que as recobriam por inteiro, outras em jeans dolorosamente apertados - na direção de barracas de tecidos. Os ciclistas alertavam os pedestres com suas campainhas antes de penetrar a multidão para entregar pães, e mulheres idosas empurravam carrinhos de mão pesados, cheios de doces e de garrafas de suco de mirtilos, de um azul profundo.

"Ahlan wa sahlan", disse Tony Stephan ao me receber em sua loja de antiguidades e artesanato localizada no Souk al-Hamidiyeh, o mais famoso dos veneráveis mercados de Damasco. Idoso e cortês, ele me conduziu em uma visita pela loja, inteiramente ocupada por caixas de madeira laqueada, elaborados tabuleiros de gamão, urnas de metal esculpido, mosaicos, jóias de beduínos e tecidos suntuosos - muitos dos quais tecidos em uma sala dos fundos, da qual eu podia ouvir claramente o ruído dos teares manuais.

"Esse é Jimmy Carter, aquele Warren Christopher, aquela Nancy Kissinger", ele me disse, apontando para as fotos de figuras internacionais que, em tempos de relações internacionais menos conflituosas, antes que a Casa Branca declarasse a Síria "nação renegada" e membro do "eixo do mal categoria júnior", costumavam fazer compras em sua loja. Mais recentemente, em abril, Nancy Pelosi, a nova presidente da Câmara dos Deputados norte-americana, e sua delegação passaram pelo souk em uma visita oficial - a primeira em anos por funcionários importantes dos Estados Unidos - o que gerou rumores locais sobre uma possível reaproximação.

O crepúsculo na Cidade Velha evoca certa melancolia. Enquanto o último chamado à oração ecoa pela noite de um azul escuro, casais e famílias ocupam as ruas asfaltadas em torno da mesquita, tomando sorvete da Bakdash, uma tradicional sorveteria da cidade. Nos cafés, homens idosos em ternos puídos tomam café turco e batem papo. Eu passei diversas noites em meio aos narguilés - o nome local para cachimbos de água - fumegantes, tomando chá de menta no velho café Al Nafoorah, assistindo ao movimento das noites de Damasco. Era o lugar perfeito para meditar sobre a cidade, um grande "manuscrito" sobre o qual tantos povos, religiões e impérios inscreveram suas histórias.

Para visitar a mais famosa das ruínas da Síria, a cidade de Palmira, parti bem cedo de manhã. O ônibus percorria a paisagem vazia, árida, em meio a camelos que caminhavam sossegados, pastores com albornozes quadriculados e tendas de beduínos. Por fim, passadas três horas, cheguei às majestosas ruínas. Colunas coríntias, arcos erodidos, teatros, tumbas decorativas nas encostas e templos a deuses esquecidos como Bel, Nebo, Arsu e Baalshamim se espalhavam pela paisagem.

Aqui, no maior dos oásis da Síria, um antigo núcleo de comércio na rota da Estrada da Seda florescia, há cerca de dois milênios. As pessoas que contemplassem o panorama, então, veriam uma próspera cidade comercial, na qual as conversas em aramaico ecoariam incessantemente em meio às caravanas de camelos carregadas de ébano, frutas secas, especiarias, perfume, marfim e seda, oriundas das distantes Índia e China. De Palmira, os bens exóticos eram despachados para leste, em direção a Roma - que por algum tempo controlou a cidade - onde terminavam arrematados por até 100 vezes o valor original.

No dia de minha visita, uma cena surreal, hollywoodiana se desenrolava entre as ruínas: centenas de adolescentes sírios vestidos de gladiador estavam preparando uma complexa coreografia para o Festival de Palmira, um evento anual que começaria ao pôr-do-sol. No bem preservado anfiteatro, operários estavam montando o palco, cortinas e bancadas de refletores no espaço que receberia o balé Bolshói e diversas orquestras. Naquela semana, a cidade morta reviveria.

Os quilômetros e quilômetros de passagens de pedra e as milhares de lojas nos souks de Aleppo, outra parada na Estrada da Seda que é hoje a segunda maior cidade da Síria, destroem rapidamente quaisquer clichês descritivos como "diversificado" ou "eclético". Palavras ocas como essas se despedaçam ao peso das roupas, do café em grãos, dos Teletubbies, das almofadas de seda, dos tapetes, confeitos e sabonetes de azeite de oliva oferecidos à venda em uma infinidade de barracas.

Evitando as carroças e os homens bigodudos que mastigavam pistache - uma especialidade local -, eu acompanhei as densas multidões pelos armazéns de pedra ornamentados construídos na era otomana e caminhei em direção da grande mesquita do século 8, onde repousa a cabeça de Zacarias, o pai de João Batista.

Os arcos de pedra, os portais de madeira maciça e as janelas fechadas por grades de ferro pareciam inalterados desde sua construção, na Idade Média. Hoje, os únicos sinais do século 21 são as meninas de escola que levam às costas mochilas da Barbie e brincam nos parapeitos de uma cidadela medieval digna de contos de fadas, e os meninos que enfrentam, aos gritos, hordas de invasores invisíveis.

Uma espécie de mundo fantasma continua a existir entre as pedras de Aleppo, desgastadas pelo tempo. Passeando pelos souks, eu não conseguia deixar de pensar que de alguma maneira estava acompanhando os passos de Mohamed Atta, o egípcio que liderou os terroristas que executaram os ataques do 11 de setembro. Estudante de urbanismo, nos anos 90, ele passou diversos meses em Aleppo escrevendo uma tese que defendia a preservação do velho mercado islâmico contra a ameaça da modernização. Mais tarde, sentado à mesa de um bar no Hotel Baron, uma decadente relíquia da era dos baús de viagem, eu sonhei que veria Charles Lindbergh, T. E. Lawrence (Lawrence da Arábia), Teddy Roosevelt ou Agatha Christie, descendo ao saguão dos quartos que costumavam ocupar há quase um século.

Mulher de um arqueólogo que trabalhava na Síria, Christie escreveu parte de Assassinato no Expresso do Oriente no hotel em que eu estava. O jovem Lawrence também trabalhou em escavações arqueológicas na área, ainda que aparentemente ele encontrasse tempo para prazer mais rústicos e marciais. "Os três dias foram corridos, ocupados por muitas pechinchas nos mercados de antiguidades (gastamos quase 200 libras) do café da manhã ao jantar", ele escreveu em carta à sua mãe, em 1912, se vangloriando de ter visto "o mais adorável teto laqueado e decorado que jamais sonhei".

De volta à Cidade Velha de Damasco, a meia-noite me encontrou no bairro cristão, em meio a uma fileira quase imobilizada de utilitários e Audis prateados que percorriam a Rua Reta, uma via da era romana, para levar as pessoas sofisticadas da cidade aos novos restaurantes e casas noturnos ocultos nas vielas labirínticas que começam ali.

Famosa como local de batismo de Saulo, a "rua chamada Reta", como diz a Bíblia, e seu bairro uma vez mais estão testemunhando conversões impressionantes, à medida que sírios jovens e empreendedores fazem de seus velhos edifícios casas noturnas, lojas e elegantes hotéis de grife à moda do século 21.

"Pode-se ver renovações em toda parte", disse Amjad Malki, co-proprietário da butique Villa Moda, popular junto à elite síria, enquanto jantávamos carne grelhada no elegante restaurante Al-Khawali. Malki transformou um estábulo do século 17 em uma loja, e substitui o feno e a cevada por bolsas Prada, sapatos Jimmy Choo e biquínis de oncinha Dolce & Gabanna, além de vestidos Kenzo; o estilista japonês, aliás, realizou um desfile no salão do piso superior da Villa Moda há alguns meses.

"As pessoas estão comprando e os preços triplicaram", disse Malki, fazendo uma lista de empreendimentos de sucesso, como o restaurante Leila e o hotel Talisman, no qual Pelosi almoçou com o presidente Assad em sua recente visita. "Todo mundo quer estar lá".

No Marmar, um clube noturno muito apreciado pelos estrangeiros que vivem em Damasco e pelos sírios mais ricos, sinais da preocupação crescente da cidade com estilo estavam evidentes em toda parte: som remixado por DJs, corpos dançando loucamente, decotes profundos, saias muito rasas, garrafas de cerveja alemã tilintando em brindes, fumaça densa de cigarros Gauloise, camisetas com dizeres como "Rock Star" e "Tequila Lounge". Havia até mesmo alguns gays locais misturados discretamente aos freqüentadores cosmopolitas, e a agitação não dava sinais de parar, mesmo que estivéssemos nos aproximando das quatro da manhã.

"Cinco anos atrás, a vida noturna não era na verdade algo que fosse visto como socialmente aceitável", disse Omar Barakat, um homem extremamente alto que trabalha como importador de equipamento elétrico, enquanto balançava o corpo na pista de dança ao ritmo de "Sweet Dreams Are Made of This". Agora, ele disse, "a cena melhorou demais".

Estudando o alegre tumulto da pista de dança, Firas Salem, homem de seus 20 e poucos anos que trabalha como advogado para uma empresa síria, não conseguia conter o sorriso. "As pessoas não costumavam se beijar em lugares públicos", afirmou, acrescentando que havia vivido em Londres por algum tempo mas que terminara cedendo à tentação de voltar à sua cidade natal.

"Damasco está se tornando um lugar atraente", ele disse, em meio à música eletrônica que pulsava pela sala e às conversas em meia dúzia de idiomas que escapavam para as ruas. "Algo de estranho está acontecendo".

Como se locomover
Viajar pela Síria é extremamente barato. A Kadmous (963-11-331-1901; www.alkadmous.com), uma companhia de transporte, opera linhas intermunicipais de ônibus, modernos e confortáveis, que ligam as principais cidades do país. Uma viagem que parte da estação rodoviária de Damasco (a Mahata al-Pullman) para Palmira custa 120 liras (o nome pelo qual as libras sírias são comumente conhecidas) ou US$ 2,25 (à cotação cambial de 53 liras por dólar). Visitar Aleppo, localizada a quatro ou cinco horas de distância da capital, sai por 230 liras em um ônibus "VIP", superconfortável. Há diversas partidas por dia, de e para cada um dos principais destinos. Compre passagens na rodoviária com 30 minutos de antecedência.

Dentro de Damasco ou Aleppo, os abundantes táxis amarelos podem ser chamados na rua a qualquer momento do dia ou da noite. Um percurso diurno na cidade raramente custa mais de 50 liras. À noite, poucos motoristas usam taxímetro (il-adaad, em árabe). Basta entrar, anunciar para onde você deseja ir e pagar 75 liras na chegada. Se você tentar negociar um preço com antecedência, o motorista costuma pedir muito mais.

Como chegar lá
Não existem vôos diretos do Brasil para a Síria. A opção mais viável para chegar em Damasco é fazer uma conexão em alguma cidade européia, a exemplo de França e Roma.

Vialuxtur - agência de viagens
Preço das passagens aéreas (ida e volta) com conexão em Roma: a partir de US$ 1.149,00 por pessoa (aproximadamente R$ 2.227,00)
Endereço: Avenida Dr. Cardoso de Melo, 1470, Conjunto 111, São Paulo -SP
Telefone: (11) 3045-2120
Endereço eletrônico: www.vialuxtur.com.br

Decolar - agência de viagens
Preço das passagens aéreas (ida e volta) com conexão em Paris e Amã (Jordânia): a partir de US$ 2.460,00 por pessoa (aproximadamente R$ 4.747,00)
Preço das passagens aéreas (ida e volta) com conexão em Paris e Arger (Argélia): a partir de US$ 1.935,00 por pessoa (aproximadamente R$ 3.734,00)
Telefones: (11) 2124-9000 e 2244-7000
Endereço eletrônico: www.decolar.com

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
 
The New York Times