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Segunda, 9 de julho de 2007, 13h58 
Descubra as belezas escondidas de Portugal
 
Sarah Wildman
 
The New York Times
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Nós estávamos dirigindo rumo ao sul na Rota 101 - uma estrada de duas vias que corta Portugal diagonalmente -, à procura de uma pequenina cidade chamada Mesão Frio e da Pousada Solar da Rede, um solar do século 18 às margens do rio Douro. Eu tinha dois mapas abertos diante de mim, e um atlas Michelin Espanha-Portugal aberto na metade norte de Portugal. Encontrar o Douro não deveria ser tão difícil. E onde estávamos, exatamente? Perdidos em algum lugar, aparentemente em uma reserva natural.

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"Não tome a via expressa", um confiante recepcionista na Pousada de Amares, onde passáramos a noite anterior, nos havia recomendado. "A Rota 101 é mais rápida". Mas um mapa mostrava Mesão Frio a leste, e outro a oeste. "Escolha uma direção e pronto", disse meu exacerbado companheiro de viagem quando chegamos ao que parecia ser a nossa quadragésima rotatória sem identificação.

Então, repentinamente, surgiu a pousada - uma mansão, barroca e gigantesca - revelada de forma imponente por sobre as águas verdes do Douro (enfim!), depois de uma infinidade de retornos e atalhos. A pousada fica a duas horas de carro da Cidade do Porto, rio acima, e oferece uma vista impressionante: dragões alados de granito guardam o caminho para a entrada e, ao lado, um jardim em labirinto protege um vinhedo; há arbustos aparados em forma de círculos e quadrados, flores por todos os lados; e o adorável Douro ostentando curvas como as que se vê nos quadros da escola do Hudson, recoberto de névoa, bem perto.

Como os paradores pertencentes ao Estado, na Espanha, a rede de pousadas portuguesas criada há 65 anos (inicialmente administrada pelo governo mas hoje gerenciada pelo grupo hoteleiro Pestana) inclui de solares do século 18, como o que estávamos procurando, a ex-conventos, mosteiros, castelos e palácios, além de prédios mais modernos instalados em reservas naturais e cadeias de montanhas. Chegar até elas é quase um desafio - durante nossa viagem de quatro dias, em maio, meu parceiro Ian e eu nos perdemos pelo menos uma vez nas estreitas estradas que se enroscam em torno de exuberantes montanhas nas quais as rodovias mudam de nome inexplicavelmente.

Mas qualquer irritação com os mapas imprecisos e cidades que não existem se dissolve na chegada. São prédios magníficos; aqueles que visitamos eram ao menos tão bem adornados quanto os estabelecimentos similares que conhecemos na Espanha, se não mais - pelo menos aos nossos olhos.

Mais tarde, naquela noite, confortavelmente alimentados e instalados, nós finalmente conseguimos rir de nossa "viagem de uma hora" para Mesão Frio, que levou quase que o triplo do tempo prometido pelo Google Maps.

Conseguimos até rir enquanto contávamos a história a nossos novos amigos e companheiros de hotel, Claudia Dannhorn e Bruno Brawand, sentados em cadeiras bordadas em damasco sob um grande lustre de cristal. Claudia correu até seu quarto e voltou com um GPS portátil. "Você precisa de um", ela disse. "Em Portugal, não existem placas em lugar nenhum". Ela se acocorou na cadeira, procurando uma posição confortável - o que requer verdadeiro esforço em cadeiras desenhadas para uma postura de bailarina do século 18.

No passado, esta era a sala de estar formal de uma nobre família produtora de vinhos; efígies de seus membros, todos adornados por perucas, decoram a tradicional parede recoberta por lajotas azuis, na sala de jantar. Como em outros solares da região, esses ricos latifundiários eram produtores de vinhos Douro - brancos, tintos e do porto-, e exploravam cerca de 25 hectares de vinhedos, bem como limoeiros e laranjeiras.

Na manhã seguinte, vimos os vinhedos e as árvores frutíferas crescendo nas encostas íngremes das montanhas e se espalhando em meio às curvas do Douro. Mas a noite em que chegamos foi tempestuosa, e a sala estava brilhantemente iluminada. Não há nada de casual no lugar. As cadeiras e os divãs são o tipo de mobília que só Maria Antonieta consideraria confortável: entalhados de maneira complexa, recobertos de brocado, de bordados trabalhosos.

Sentar em uma sala como aquela, com as paredes revestidas das lajotas originais do século 18 e decoradas por espelhos franceses de moldura dourada, com suas cadeiras de espaldar reto e sedas de época espalhadas por toda parte, nos fazia sentir como se tivéssemos ignorado as cordas de veludo vermelho que delimitam as áreas de exposição, e estivéssemos repousando em um dos aposentos de Versalhes. Em uma bancada, um texto impresso em português em um volume puído narrava a história dessa propriedade familiar transformada em pousada.

Um livro contendo fotos maravilhosas das pousadas portuguesas, "Moradas de Sonho", as define como "preservação da herança arquitetônica e natural" (de Portugal), "de sua arquitetura vida e das riquezas da culinária portuguesa".

A sala de jantar do Solar da Rede - onde especialidades locais, como sopa de repolho e pato grelhado com molho caramelado de cereja são servidas em companhia de inovações como crepes vegetarianos - é impressionante, com candelabros de época e lajotas portuguesas. O ambiente de discreto luxo das pousadas oferece um vislumbre da paisagem e da história de Portugal nas regiões que os visitantes do país pouco costumam freqüentar.

Claudia e Bruno são exatamente o tipo de visitante que Portugal espera atrair como turistas. O casal (ela é alemã, ele suíço) controla e administra o hotel Berghaus Bort, em Grindewald, uma cidade nos Alpes suíços, e entre novembro e maio trabalham sem um dia de repouso. Depois disso, em lugar de dormir, eles viajam por três semanas. Algum tempo atrás, foram à Tailândia. Neste ano, estão saltando de pousada em pousada portuguesa, em larga medida porque muitos de seus funcionários são portugueses e eles queriam descobrir mais sobre o país.

A jornada de Claudia e Bruno começou no Castelo de Óbidos, uma construção do século 12, a primeira pousada que empregou como sede um edifício histórico convertido. Eles dormiram na torre. Depois, foram à cidade medieval de Guimarães, cujo centro é parte do patrimônio histórico da humanidade, protegido pela Unesco.

Saindo de carro de Guimarães, em qualquer direção, rumo à fronteira com a Espanha, ao norte e leste, ou à costa atlântica, o campo está repleto de pousadas, a maioria das quais ocupando as sedes de antigos conventos, o que reflete a austeridade e o isolamento da região na Idade Média. Muitas das construções se deterioraram severamente antes que o sistema das pousadas as incorporasse e reabilitasse. Mas o estado de ruína facilitou as restaurações, em lugar de dificultá-las, porque permitiu aos arquitetos certa liberdade artística, o que faz dessas construções exemplos tanto de imaginação quanto de História.

Talvez o melhor exemplo seja oferecido pela pousada Santa Maria do Bouro, um antigo mosteiro localizado ao lado de Amares, cerca de 35km ao norte de Guimarães. Lá, conheci J. Kasmin, um negociante de arte londrino aposentado.

Kasmin e o amigo Peter Brock chegaram à pousada literalmente a pé, ao final de uma excursão composta por caminhadas pelo campo português, organizada pela On Foot Holidays. Para eles, o efeito de contemplar a pousada em meio à névoa foi semelhante ao sentido pelos peregrinos que visitavam o mosteiro no século 14 - pelo menos até que os peregrinos de uma era mais recente entrassem e encontrassem a transformação que a arte e o design moderno propiciaram às velhas paredes.

No final dos anos 80, o mosteiro de Santa Maria do Bouro, construído no século 12 e arruinado por longas décadas, foi entregue ao arquiteto português Eduardo Souto de Moura. Ele passou oito anos trabalhando na restauração, e a pousada foi inaugurada em 1997.

O arquiteto percebeu, enquanto trabalhava, que "não estava restaurando um mosteiro, mas construindo uma pousada com as pedras que eram parte dele". O pátio interno foi deixado praticamente como estava, em ruínas, com árvores crescendo nas frestas das pedras e arcos que conduzem a lugar algum, visíveis através de janelas gigantescas instaladas nos corredores.

Mas os quartos, no passado as celas dos monges, são modernos e elegantes, com banheiros de mármore branco. Nos corredores, um teto de ferro oxidado oculta o ar condicionado e o encanamento moderno. As grandes janelas oferecem vista para a capela que era parte do mosteiro, e combinam o antigo e o novo.

No piso inferior, as paredes do restaurante foram construídas inteiramente com as antigas pedras, empilhadas até formarem um vão de três andares de altura. Os fornos originais do mosteiro, gigantescos e enegrecidos, estão expostos, enquadrados por uma moldura preta. Mas as mesas são modernas, com cadeiras de madeira clara e talheres tão delicados e sensuais que parecem mais apropriados a uma coleção da George Jensen do que a um refeitório medieval. O chef prepara especialidades locais como polvo grelhado com batatas "esmagadas" (assadas e depois comprimidas contra o prato), e acrescenta inovações como pratos vegetarianos e arroz temperado com coentro.

Do lado de fora do restaurante, a vista oferecida através de cinco arcos, culminando em uma porta antiga de madeira, pintada de verde, causa curiosidade a muitos observadores. As áreas públicas da pousada combinam o antigo e o moderno, com cadeiras de couro castanhas dispostas diante das pedras do século 12, e uma imensa lareira diante do bar. Grandes quadros de arte moderna parecem bem adaptados ao espaço.

Do lado de fora dos muros, uma caminhada de cerca de quatro quilômetros conduz a outra igreja medieval. A cozinha da pousada oferece um almoço para piquenique, nesse tipo de visita.

A maioria das pessoas prefere fazer passeios de carro, orientando seus sistemas de navegação GPS à cidade histórica de Guimarães, cerca de 45 minutos distante. As ruínas do castelo da condessa Mumadona Dias, considerada como a mais poderosa mulher de Portugal no século 10, ficam a apenas cinco minutos do centro da cidade, a pé.

Hoje, as paredes que restam servem como parque de diversões para qualquer criança ou adulto que tenha um dia apreciado histórias de princesas e príncipes. O lugar é exatamente como imaginaríamos um castelo, com fosso, torre e ameias. Logo ao lado, fica o palácio dos duques de Bragança, construído no século 15 e preservado de maneira muito mais completa, que hoje abriga um museu.

As duas pousadas de Guimarães oferecem cada qual uma porção da mesma história. A Pousada Nossa Senhora da Oliveira, no centro, fica diante da igreja homônima, construída no século 14, e das residências medievais dos nobres, construídas no coração do centro histórico, no século 15. Percorrer as ruas por aqui oferece amostra tão forte do encanto local quanto as pousadas - lajotas pintadas dos séculos 17, 18 e 19 adornam as paredes, vigas de madeira grossa sustentam os edifícios antigos.

A segunda pousada, instalada em lugar isolado, um pouco diante da cidade, fica em uma colina. O terreno é magnífico, com um pequeno riacho que termina em uma minúscula cachoeira, jardins bem tratados e um grande pátio coberto revestido de lajotas de 300 anos e equipado de uma fonte de pedra da qual a água ainda jorra.

No dia de minha visita, Inger Baehr, professora norueguesa aposentada, estava sentada na pousada, junto às janelas que oferecem vista para a cidade, lendo sobre a história local. Alguns anos atrás, ela e o marido reservaram um quarto na pousada, no intervalo de uma conferência em Lisboa, mas se perderam e só chegaram às 23h. Mesmo assim, ficaram tão impressionados que prometeram voltar para desfrutar plenamente da experiência. "Voltamos em janeiro", conta Inger, "e agora estamos aqui com minha mãe, que tem 91 anos, meu irmão, irmã e seus cônjuges".

A transição de Guimarães ao Solar da Rede, a pousada em Mesão Frio, é dramática, especialmente se você ignorar a rodovia expressa e decidir tomar a estrada secundária, que atravessa o parque nacional, como fizemos. O carro emerge da floresta em meio a um panorama de vinhedos e árvores frutíferas que parece se estender sem limites. Mas nada é mais notável do que as fortes diferenças geográficas que Portugal é capaz de oferecer mesmo em distâncias tão curtas.

Deixando o vale do Douro depois do Solar da Rede, viajamos para a Reserva Natural de São Jacinto, na costa atlântica. Em um istmo localizado a menos de uma hora de carro da Cidade do Porto, a região se assemelha ao que o North Fork de Long Island deve ter sido no começo do século passado - terras aráveis se estendendo até onde a vista alcança.

Tratores. Bois. (Bois!) Para cada cinco tratores, uma carroça. Da ponte à pequena cidade costeira de Torreira e à reserva natural - um paraíso para os observadores de pássaros -, a água se apresenta calma e azul; barcos moliceiros azuis, com proas e popas recurvadas, flutuam, ancorados em grupos, perto de barcos a motor mais modernos; ciclistas em grandes grupos percorrem o terreno plano.

Depois dos mosteiros e dos solares, tínhamos uma escolha: hospedagem em mais um palácio ou em uma das "novas" pousadas, construídas mais para privilegiar a relação com a natureza do que com a História. Optamos pela segunda escolha, e nos hospedamos na Pousada de Torreira-Murtosa.

Inaugurada em 1967, ela oferece uma adorável sensação de casa de veraneio, com sua decoração em tons náuticos, elegantes sofás estampados em marrom e creme e pisos de sisal. O edifício é arejado - chega a lembrar um pouco o trabalho de Frank Lloyd Wright, ou um projeto de Mike Brady, o pai arquiteto no seriado de TV Brady Bunch, se você está disposto a ser mais chato.

O objetivo do projeto é dar ao mar a posição de destaque. No piso inferior, as paredes são de vidros, o piso é de pedra. No restaurante, instalado por sobre uma laguna, a pousada oferece peixes e frutos do mar locais - bacalhau, sardinha, arraia, polvo -, com acompanhamento de azeitonas. Já que a pousada fica isolada em meio à reserva natural, não existem vizinhos barulhentos, sons de barcos a motor - apenas a água, os pescadores ao longe e dunas vizinhas que se pode galgar. Nós nem nos perdemos no caminho.

"Aqui, você pode recarregar suas baterias", disse o gerente do hotel, feliz por poder usar uma expressão idiomática norte-americana. Seria engraçado, se o que ele disse não fosse tão verdadeiro.

As pousadas
No site central sobre pousadas, www.pousadas.pt, há descrições de cada uma delas; um mapa do país, repleto de pontos identificando as pousadas, permite que o turista desenvolva uma noção sobre a distância que as separa.

O grupo hoteleiro Pestana, que administra as pousadas, recomenda "percursos", como a "rota do vinho do Porto" ou "Lisboa e a rota dos castelos", além da "rota do arroz" e a "rota da pesca", mas os nomes pouco significam se você não tem uma idéia básica da geografia portuguesa. Pode-se combinar estadias em pousadas com visitas ao Porto, Lisboa ou ao Algarve, visitando as hospedarias, construídas entre o século 12 e o século 20, localizadas ao longo do percurso.

A maneira mais econômica de visitar as pousadas é adquirir um "passaporte", que custa 360 euros (cerca de US$ 485) e oferece hospedagem por quatro dias em quarto de casal, com suplemento de 35 euros pelas noites de sábado. O passaporte vem com algumas regras ¿ certas pousadas não o aceitam em agosto, outras cobram uma pequena taxa adicional-, mas, por 11 meses ao ano, especialmente em viagens de meio de semana, o passaporte oferece economia significativa com relação às diárias regulares, cuja média é de 185 euros. Diversos outros pacotes estão disponíveis em www.pousadasofportugal.com/passport.html.

Estranhamente, o site e central telefônica das pousadas (351-21-844-20-01) são menos receptivos a pedidos de desconto do que as recepções de cada uma delas, mas mesmo assim verifique o site em busca de "ofertas especiais", que variam de pousada a pousada.

O melhor é ignorar as rotas recomendadas; começamos pelo extremo norte, ficando na Pousada Santa Maria do Bouro (351-253-371-970), projetada por Eduardo Souto Moura e inaugurada em 1997, e depois mergulhamos em direção a Guimarães para experimentar a Pousada Nossa Senhora da Oliveira (351-253-514-157), na cidade, e a Pousada Santa Marinha (351-253-511-249), nas colinas que a cercam.

Em seguida, viajamos de carro acompanhando o rio Douro e passamos a noite na Pousada Solar da Rede, em Mesão Frio (351-254-890-130). Nossa parada final foi em uma "nova" pousada, a Pousada de Torreira-Murtosa (351-234-860-180), construída 40 anos atrás na Ria Aveiro, diante de um amplo braço de mar que banha a cidade de Aveiro, em meio a uma reserva natural. Nenhum desses hotéis tem endereço. O site, em lugar disso, oferece um link ao serviço de mapas online do guia Michelin. Imprimi os mapas que encontrei lá, mas mesmo assim me perdi o tempo todo.

Comida
A culinária regional se reflete nos cardápios, e com o passaporte das pousadas recebemos dois cupons de descontos de 20% para jantares. Nossa melhor experiência gastronômica talvez tenha acontecido na Pousada de Torreira-Murtosa, junto à costa, com seu peixe fresco e os excelentes ceviches servidos como entrada.

Fora da rota das pousadas, bem perto da Pousada Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães, descobrimos o Val-Donas (Rua de Val Donas 4; 351-253-511-411; www.valdonas.com), um espaço modernista adorável com paredes caiadas de branco e decoradas por fotos branco e preto. O cardápio é local - peixe, repolho, sopa -, mas razoável. Um jantar para dois, com vinho, custa cerca de 45 euros.

Vinhos
Perto da Pousada Solar da Rede, no vale do Douro, é possível visitar pequenas vinícolas como a Quinta de la Rosa (Pinhão; 351-254-732-254; www.quintadelarosa.com), que também serve como uma pequena pousada; Quinta Nova (Pinhão; 351-254-730-430); e a Caves Sandeman (Largo Miguel Bombarda 3, Vila Nova de Gaia; 351-223-740-500; www.sandeman.com), de maior porte.
 
The New York Times