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Domingo, 17 de agosto de 2008, 09h32 Atualizada às 09h30 Ciclismo na "Estrada da Morte" é aventura na Bolívia |
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Ethan Todras-Whitehill |
A rodovia mergulha em íngreme declive encosta abaixo, e o pavimento está escorregadio devido à chuva e ao granizo. Passam carros em ambas as direções, o que me força a pedalar bem rente ao despenhadeiro de 450 metros de altura que margeia a estrada. A neblina obscurece os topos verdes das colinas e os penhascos negros do outro lado do vale. Abaixo de nós está chovendo, mas a uma altitude de 4,5 mil metros nosso pequeno grupo de aventureiros na verdade está dentro da nuvem, enfrentando a precipitação gelada em nossos rostos e mãos expostos enquanto descemos a montanha de bicicleta a velocidades claramente inseguras. Trata-se da primeira etapa de um dia de ciclismo na Estrada Mais Perigosa da Bolívia, também conhecida como "Estrada da Morte", se é que o alarde todo merece crédito. Ela desce por 3,6 mil metros, de um passo nas montanhas perto de La Paz até a aprazível cidade turística de Coroco. É uma obra de infra-estrutura típica dos países em desenvolvimento transformada em atração turística.
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O apelido sombrio surgiu de um relatório dos anos 80, quando a Bolívia estava tentando obter financiamentos que permitissem construir uma estrada que viesse a substituir o velho percurso e, por isso, decidiu alardear o número de vítimas fatais que o trânsito por ela acarretava - o maior do mundo, superando 300 mortes anuais. Desde que a nova estrada foi concluída, o número de vítimas fatais se reduziu acentuadamente, mas uma nova estatística surgiu: a de mortes em acidentes de ciclismo que superam a média de uma ao ano na velha estrada.
Os guias por fim nos instruem a parar no acostamento e esperar pela van que nos levou ao topo e nos acompanhará estrada abaixo, em caso de ferimentos ou defeitos mecânicos. Tento descerrar os punhos que seguram o guidão, mas o frio os travou naquela posição, e minhas luvas finas de corrida se provaram inúteis. A água começou a formar poças geladas nas minhas botas.
Pergunto quanto tempo vai demorar para que cheguemos a uma altitude em que o ar pareça mais quente, e a resposta é "cerca de uma hora". Os guias prosseguem explicando que, pouco depois disso, sairemos do asfalto da estrada nova e entraremos na antiga, uma pista de três metros de largura, pavimentada com cascalho e estreitamente aninhada entre encosta e precipício. Aquela é a "verdadeira" Estrada Mais Perigosa. Por enquanto, estamos só no aperitivo. Observo a estrada enevoada, inseguro quanto a continuar ou não, e depois olho para a cima. A van não demorará a chegar.
Das encostas nevadas de seus picos de seis mil metros de altitude ao seu status como país mais pobre da América do Sul, a Bolívia é uma terra de extremos. Ao longo dos últimos 10 anos, este país, que para os turistas representava apenas uma incômoda passagem terrestre entre o Peru e a Argentina, começou a fazer de alguns de seus extremos uma vantagem e se tornou um florescente centro de turismo de aventura e ecoturismo. O feito foi conseguido por meio de apelos aos jovens e aos audazes, dispostos a trocar segurança, conforto e conveniência pelas emoções a baixo preço que o país oferece.
A aventura começa tão logo o viajante desembarca do avião em La Paz e tenta respirar. O Aeroporto de El Alto, a 3,9 mil metros de altitude, está entre os mais altos do mundo, e os melhores hotéis de La Paz oferecem tanques de oxigênio puro aos seus hóspedes. Há casas de adobe penduradas das encostas do amplo desfiladeiro que define a geografia da cidade; a avenida central corre pelo piso do vale.
Cerca de 15 anos atrás, a rua Sagarnaga, uma ladeira que termina no coração da cidade, era ladeada por barracas que vendiam lã, botões e fios. Hoje, uma seqüência de coloridas placas anuncia agências de turismo com nomes como X-Treme e Downhill Madness. Pequenos grupos de jovens viajantes entram e saem delas em busca dos melhores preços para uma viagem à Amazônia ou uma expedição de montanhismo.
A empresa de La Paz que foi a pioneira das viagens de ciclismo pela Estrada Mais Perigosa, a Gravity Assisted Mountain Biking, por exemplo, conduziu mais de 33 mil ciclistas em passeios pela estrada nos últimos 10 anos, e seus negócios vêm crescendo em ritmo de 20% por ano, ainda que cerca de 30 outras agências ofereçam serviço semelhante na cidade. Dado o papel significativo que o turismo desempenha na economia de muitos países, seria de esperar que crescimento como esse fosse resultado de um esforço governamental coordenado. Na verdade, o fenômeno do turismo ecológico e de aventura, que cresce rapidamente na Bolívia, vem sendo promovido quase completamente pela iniciativa privada, de acordo com Luis Hurtado, diretor de promoção de turismo no Vice-Ministério de Turismo boliviano.
Três elementos contribuíram para o fenômeno, todos surgidos depois dos anos 90, de acordo com operadores de turismo que entrevistei: o crescimento do ecoturismo na porção boliviana da bacia amazônica, no norte do país, que oferece experiências de selva semelhantes às do Peru mas com preços bem inferiores; o desenvolvimento do turismo nos belos mas extremos pântanos salgados do sudoeste do país; e a popularização das viagens ciclísticas pela Estrada Mais Perigosa, que começou em 1998.
Viajar pela Bolívia é empreitada notoriamente perigosa, e não apenas por conta da altitude, que pode causar dores de cabeça, tontura e em raros casos doenças letais. As comunidades locais muitas vezes expressam sua frustração para com o governo bloqueando estradas por dias ou até semanas. E os padrões deficientes de higiene significam que problemas gastrointestinais são inevitáveis em viagens à Bolívia. Mas para os jovens aventureiros, para quem "extremo" é um argumento de venda e não um alerta, essas tribulações de viagem representam simplesmente uma outra forma de aventura.
"Não se sabe o que esperar, a cada dia - se você vai sofrer envenenamento alimentar, ou se o seu ônibus ou avião vai realmente partir", diz Fergal Lyons, 26 anos, um professor irlandês de segundo grau que fazia parte de meu grupo de ciclismo na Estrada Mais Perigosa. "É ótimo, se você tiver paciência", afirma.
Eu havia visitado a região amazônica da Bolívia em 2006. Nadei em águas infestadas por piranhas, acariciei uma anaconda selvagem e ajudei minha namorada a sobreviver a um ataque de formigas venenosas, mas passei a maior parte do tempo espantando mosquitos e tentando sobreviver ao calor opressivo. Em minha mais recente visita à Bolívia, no começo do ano, optei pelo sul, os pântanos salgados de Uyuni. Lá não são tanto os esportes e atividades que merecem o nome "extremo", mas sim o simples ato de observar a paisagem. Em uma típica viagem de três dias à região de Uyuni, seis viajantes se apertam na traseira de um jipe para percorrer cerca de mil quilômetros em estradas que mal merecem o nome. O jipe atinge altitudes de 4,8 mil metros, e uma das noites é passada a 4,3 mil metros, a altitude da montanha mais alta na porção continental dos Estados Unidos. Os veículos quebram freqüentemente. Os abrigos noturnos (seria exagero chamá-los de "albergues") são feitos de blocos de sal ou de barro, e não oferecem aquecimento. Na alta temporada do turismo boliviano, entre junho e agosto, as temperaturas regionais variam cerca de 15 graus durante o dia a menos de zero à noite.
Mas as paisagens valem todo o sacrifício. Cheguei lá em um dos três vôos semanais, e fui rapidamente embarcado em um jipe com cinco outras pessoas afortunadamente menores do que eu. Passei as horas seguintes tentando compreender o Salar de Uyuni. Sua imensidão e sua brancura - com 10 mil quilômetros quadrados, a região é visível do espaço - resistiram a todas as minhas tentativas de categorizar o lugar de maneira fácil de compreender. Primeiro imaginei que fosse feito de gelo. Liso, refrativo, altitude extrema - tem de ser gelo. Mas o gelo não fica recoberto por uma grade de polígonos formados pela evaporação das chuvas, como uma gigantesca colméia irregular. Depois chegamos a uma área em que uma camada fina de água cobria as depressões salinas e espelhava as nuvens e montanhas. Saí ao sol quente e pensei: praia. Mas os cristais sob a água eram duros, espinhosos, e a água não se misturava ao sal; flutuava sobre ele como uma camada de petróleo.
Paramos por algumas horas em Fish Island, uma colina em forma de peixe coberta de cactos. De seu topo, os padrões de maré das depressões salgadas, que no passado eram um imenso lago salgado, ficam claramente perceptíveis, como se um dia a onda de água tivesse varrido a praia e depois se evaporado antes que pudesse retornar, deixando apenas uma camada espessa de sal como prova de que um dia existiu. Depois do almoço, os diversos grupos de viajantes se espalharam para tirar fotos deles mesmos naquele ambiente - uma atividade turística típica, mas com uma diferença. Nossos olhos não compreendiam o Salar, e o mesmo se aplicava às nossas câmeras. Fotos tiradas diante do fundo branco reluzente de Uyuni perdem toda a perspectiva, e isso faz de fotos brincalhonas um dos passatempos prediletos dos visitantes aos pântanos salgados.
Uma mulher israelense tirou uma foto de sua amiga sendo esmagada pelas mandíbulas de um tigre de brinquedo que ela comprou para isso; um jovem inglês fotografou uma menina australiana meditando sobre as páginas de um guia Lonely Planet; o casal irlandês do meu grupo se fotografou como que saindo de uma garrafa de refrigerante. Parecia uma sessão de brincadeiras no Photoshop, mas conduzida ao vivo.
Um dos seis turistas em nosso jipe era Alejandro Alvarez, boliviano que trabalha como guia na Amazônia. Ele havia visitado Uyuni porque seus clientes estavam sempre falando de suas visitas à região ou de seus planos para fazê-las. Enquanto todo mundo caía de cansaço depois da passagem por Fish Island, sob o efeito do calor e da altitude, Alvarez continuava absorto pelas depressões salinas, agora cobertas de chuva de primavera e refletindo o céu com perfeição. "Parece outro planeta", dizia ele.
Em retrospecto, o primeiro dia passou em ritmo de férias. A noite nos levou a um hotel feito de blocos de sal, com lençóis de cetim vermelho, uma visão que parecia um bordel da era de Elvis dentro de um castelo de areia. Nos dois dias seguintes, e em 20 horas de percurso empoeirado, vimos lagos vermelhos e verdes, flamingos rosados, fontes quentes, gêiseres; e tivemos de suportar três pneus furados e uma pane por falta de gasolina. Nosso guia era tão soturno e tão pouco prestativo que Alvarez não permitia que a chamássemos de "guia", porque não queria sentir sua profissão desrespeitada. No caminho de volta a Uyuni, no terceiro dia, o guia passou o percurso todo bebendo cerveja, ou algo parecido, clandestinamente.
Mas a adversidade era parte do atrativo, uma vez mais. Nosso desconforto e irritação eram esquecidos em meio aos risos e às primeiras piadinhas internas, enquanto percorríamos campos verdejantes e víamos vicunhas pastando e ocasionais avestruzes andinos, solitários e majestosos, correndo na beira da estrada e deixando trilhas de poeira.
Voltei a La Paz de ônibus, disposto a fazer a apavorante viagem de bicicleta mas temeroso quanto às conseqüências. Em minha viagem de 2006 à Bolívia, eu havia observado a Estrada Mais Perigosa. Concluí que, em minha lista de maneiras inteligentes de aproveitar um dia, percorrê-la equivalia mais ou menos a jogar pedras em um vespeiro. Mas meu senso de aventura ainda assim me estimulava. E em 2008, um importante aspecto da viagem havia mudado, quando procurei informações a respeito. A estrada de substituição que havia levado à adoção do termo "Estrada Mais Perigosa" estava enfim pronta (inaugurada em março de 2007), e isso levava os automóveis a percorrer pelo menos em parte uma rota separada. Na segunda porção da viagem de bicicleta, que continua a percorrer a velha estrada de cascalho ao longo do precipício, carros são raros agora, e se limitam ao tráfego local, o que dá aos ciclistas mais espaço na pista de três metros de largura.
Isso não significava, claro, que a rota fosse segura. Pedi conselho a Alistair Matthew, fundador da pioneira Gravity Assisted Mountain Biking. A causa número um acidentes no percurso, ele me disse, era "quando a testosterona superava a habilidade." Ele me aconselhou a tomar cuidado e a escolher uma agência respeitada, acrescentando que "lembre-se de que você não está nos Estados Unidos, onde a ameaça de um processo judicial bastaria para manter uma empresa na linha."
De fato, algumas agências de viagens bolivianas que operam nos dois países não reservam essa viagem por motivos legais. E mesmo as melhores precauções podem não bastar: a agência de Matthew perdeu seu primeiro ciclista em abril de 2008, um mês depois de minha visita - um homem de 56 anos que nem mesmo estava pilotando de forma arriscada.
Eu talvez não estivesse pensando com clareza quando, a 4,5 mil metros de altura, congelado e em meio à Estrada Mais Perigosa, decidi que subiria de novo na bicicleta. Parávamos mais ou menos a cada 20 minutos, o que bastava para que eu removesse a água de minhas botas e tentasse aquecer um pouco os meus dedos. Como prometido, o ar logo esquentou, e a estrada pavimentada chegou ao fim. Tomamos uma estrada de cascalho estreita, cheia de sulcos, mais adequada a uma entrada de garagem caseira do que a uma rodovia panamericana. Os guias paravam para contar histórias sobre as centenas de pessoas mortas a cada curva que percorríamos, e depois nos lembravam de andar na beira da estrada para evitar o tráfego inexistente, a cerca de cinco palmos do precipício e na ausência de grades de proteção. Como se nós fôssemos obedecer.
Para meu susto, os demais ciclistas o fizeram. (Eu mesmo preferi o caminho mais perto do paredão da montanha.) Só descobri que companhia eu tinha na viagem em uma das paradas para comer, quando um escocês contemplou o abismo e disse que adoraria tentar baggy jumping (pular no precipício com um pára-quedas) ali. E então aconteceu algo engraçado. Descendo velozmente por uma curva sinuosa, nós encontramos uma cascata no meio da estrada. Sem tempo para calcular como a água poderia afetar o relacionamento já precário entre minhas rodas e o cascalho - e tampouco para brecar - deixei o medo de lado. Curvei as costas e cruzei a água, rindo, e pedalei mais rápido para alcançar os companheiros. Chegamos à cidadezinha que marca o final do passeio. A vegetação luxuriante do vale parecia invadir a estrada. Por trás de nós, as montanhas imensas pareciam nos contemplar, ainda envoltas em neblina e medo, mas esquecidas em nosso pequeno momento de glória. No final da Estrada da Morte, só havia vida: periquitos voando por sobre nós, flores de cores vivas se movendo ao vento e os jovens homens e mulheres que haviam concluído a descida - todos suados, sorridentes e vivos.
Selva, pântanos de sal e estradas mortíferas
A Bolívia muitas vezes termina visitada como segundo destino por quem vai ao Peru, em uma viagem mais longa à América do Sul. Vôos diretos para La Paz e de volta podem ser demorados e caros. Uma busca online de vôos para a região de Nova York e uma viagem de uma semana em setembro revelou vôos com uma e duas escalas pela LAN Peru e sua parceira American Airlines, a partir de US$ 706, passando por Lima e Bogotá. Uma alternativa é voar para Santa Cruz, no leste da Bolívia, destino de vôos que partem de Nova York com escala em Miami, por preços de US$ 1 mil ou mais, no mesmo período. Mas isso o deixa mais longe das áreas mais atraentes.
Tradução: Amy Traduções
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The New York Times
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