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Domingo, 15 de fevereiro de 2009, 16h05 
Miami Beach continua a receber turistas apesar da crise
 
Ruth La Ferla
 
The New York Times
Turistas se divertem em uma das casas noturnas de Miami Beach
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A crise financeira pode acabar com o turismo de luxo?

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Durante um jantar recente em homenagem ao autor Steve Gaines, o ex-prefeito de Miami Beach, Alex Daoud, e Michael Aller, o espirituoso diretor de turismo da cidade, trocaram o champanhe pela água mineral com um toque de limão.

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Será que eles se tornaram abstêmios frente aos tempos difíceis? É um pensamento tentador. Certamente sua sobriedade vai contra o espírito vibrante de Miami Beach descrito por Gaines em seu novo livro, Fool's Paradise: Players, Poseurs, and the Culture of Excess in South Beach. A história social recheada de fofocas de Miami Beach inclui décadas de transformação do que era "uma estreita faixa de areia da baía," nas palavras do autor, e se tornou um Éden veloz e ostentoso, onde corrupção, crime e gastos perdulários fazem tanto parte da paisagem quanto areia e palmeiras.

Nos últimos meses, a economia declinante mudou inevitavelmente a paisagem. Muitos dos reluzentes hotéis da Ocean Drive não têm dois terços de ocupação e a escalada dos aluguéis combinada à desaceleração das vendas forçou várias butiques e restaurantes a abandonarem a Lincoln Road Mall, uma rua de oito quadras somente para pedestres que é o centro urbano de South Beach.

A recessão claramente projetou sua sombra pela região. Mas não é uma sombra vasta o bastante para escurecer os espíritos à busca de calor, que ainda procuram South Beach como uma forma de fuga. Entorpecidos pelo ar lânguido e os hotéis de cor pastel e arquitetura art déco, muitos ainda decididamente cedem ao desejo hedonista.

No novo Louis Bar, onde sofás pomposos e cardápios cor-de-rosa com espartilhos sugerem uma cena de A Vênus das Peles, Adriana Leone, dentista de Wall Street, explicou, "vim porque o lugar é novo, mas acima de tudo porque precisava sair da depressão econômica na qual Nova York está no momento."

Ela é uma dos muitos visitantes de alta temporada de Miami Beach neste inverno, o último refúgio, um lugar para se livrar das inibições, fiscais ou qualquer outra, que os restringem em casa. Mary Emmerick, professora de Chicago, está planejando uma viagem para Miami Beach, onde passou as férias nos últimos 12 anos. "Na primeira vez que vim, não parava de sacar dinheiro do banco para poder ficar mais tempo," disse. "E, mesmo agora, sei que não quero ir embora."

Os turistas de Miami e Miami Beach - 12,1 milhões no ano passado, segundo a Agência de Visitantes e Convenções da Grande Miami - não param de chegar de Nova York, Atlanta, Buenos Aires e São Paulo, lotando casas noturnas, restaurantes, piscinas e butiques. "As pessoas agora bebem vodca ao invés de champanhe, mas ainda estão por aqui," disse Roman Jones, proprietário do Opium Group, a força por trás de casas exuberantes como Set, Mansion, Prive e o incansavelmente badalado Louis Bar, que fica dentro de um hotel de apenas oito meses, o Gansevoort South. Apesar da recessão, segundo Jones, cerca de 15 mil pessoas continuam freqüentando as noites de seus clubes.

"Eles vêm para liberar a tensão. E se gastar US$5 mil em algumas noites vai fazê-los esquecer que perderam mais de US$5 milhões, então para eles vale a pena," disse. "Eles estão vivendo um tempo que já passou, mas não querem abrir mão disso."

Novos grupos de turistas
Nesta temporada, a leva costumeira de visitantes de Nova York, América Latina e Europa ganhou a companhia de alguns russos endinheirados, que contribuem generosamente para a economia da cidade.

"Na primeira semana de janeiro ganhamos o equivalente ao mês inteiro do ano passado, tudo graças aos russos," disse Roma Cohen, sócio da Alchemist, uma butique de um ano da Lincoln Road que vende grifes luxuosas como Azzedine Alaia e Rick Owens. "Eles são os únicos que compram sem pedir desconto."

Cohen, sob pressão para manter as grifes quentes no estoque, pode estar segurando as pontas, mas outros lojistas estão sofrendo, anunciando quedas nas vendas de até 20%. Durante dias úteis e em alguns finais de semana, o tráfego da Lincoln Road pode diminuir drasticamente. Mead Dunevant, gerente-adjunto da Fly Boutique, uma loja vintage, reclamou em um domingo: "está tudo parado, parece o verão. As pessoas não estão gastando como antes e isso piora a situação local."

Entretanto, a economia não impediu alguns forasteiros de conquistar territórios no shopping. Espera-se que a J. Crew chegue em novembro e a Diesel, fornecedora de Milão da moda casual e moderna, abriu suas portas no mês passado, a última das três lojas do grupo na área de Miami.

"Existem certos mercados que têm sucesso inacreditável", Steve Birkhold, chefe-executivo da Diesel USA, disse ao Women's Wear Daily na semana passada, "e Miami é um deles."

Algumas dessas iniciativas comerciais têm previsões de bons lucros. Mas os indicadores econômicos gerais mostram uma cidade próspera que esfriou. Os preços declinantes e o aumento do número de casas e apartamentos à venda colocam Miami e Miami Beach na liderança da crise imobiliária dos EUA. Os preços das casas estão de 15% a 25% menores do que em seu pico em 2004, disse Michael Y. Cannon, analista imobiliário de Miami.

Hotéis de luxo em Miami Beach como Delano e Setai parecem desertos em alguns dias, com os passos de alguém ecoando pelo terraço. As taxas de ocupação dos hotéis de luxo em Miami Beach diminuíram 17,6% em dezembro em comparação a 2007, segundo a Smith Travel Research, que acompanha o setor hoteleiro. O Gansevoort, que ocupa um quarteirão da Ocean Drive em uma área de rápido crescimento a norte da 20th Street, é um dos muitos hotéis de luxo oferecendo descontos e pacotes de viagens. Duas diárias em um quarto duplo saem por US$395, onde a tarifa normal chegaria a US$795 a diária. Miami Beach já passou por tempos piores. Embora o lugar fosse um sucesso durante a Depressão, sofreu bastante nos anos 1970, quando foi trocada pela Europa e o Caribe.

"Os negócios iam tão mal," Neisen Kasdin, ex-prefeito de Miami Beach, disse a Gaines em seu livro, "que ficava feliz quando encontrava prostitutas."

No final dos anos 1980, o influxo de modelos e estilistas, que eram freqüentadores das noites e especuladores imobiliários, reanimou South Beach. Um dos pioneiros foi o estilista Gianni Versace, que comprou uma opulenta casa no centro de tudo. Quando foi baleado e morto na porta de sua casa por um desocupado em 1997, a má publicidade não reduziu o fluxo de turistas, empresários e beldades profissionais se exibindo nas praias com regatas e roupas de banho.

Como Gaines coloca em seu livro, "notoriedade e emoção são em parte o que South Beach vende. "Nos últimos seis anos, uma ambiciosa onda de construções levantou hotéis como Setai e Fontainebleau, que passou por uma renovação de US$500 milhões no ano passado. "Agora a situação está consolidada," disse Michael Capponi, construtor e promotor local. "Existe investimento demais para tudo entrar em colapso."

Serão essas as famosas últimas palavras? Talvez. Mas em uma recente noite de sexta-feira, a atividade febril de restaurantes e atrações noturnas sugeria que existe mais na fala de Capponi que apenas pensamento positivo. Do lado de fora da Set, um grupo de jovens em roupas de couro e mini-saias brilhantes suplicava por uma chance para entrar e escutar Estelle, a estrela britânica do hip-hop e R&B. Do lado de dentro, garotas em túnicas dançavam sobre mesas étnicas imitando seus movimentos; no andar superior, outras balançavam como se estivessem hipnotizadas pelas luzes piscantes.

Mais cedo, no Prime 112, um dos cinco restaurantes em South Beach de Myles Chefetz, clientes de paletós e curtos vestidos de festa se amontoavam na fila, esperando por mesas na calçada da Ocean Drive. Do lado de dentro, outros devoravam uma porção dupla de bisteca por US$79 ou a exótica versão do restaurante de comida caseira: um prato de macarrão com queijo trufado ao vapor. Os negócios no Prime 112 subiram 5% em 2008 em relação ao ano anterior, disse Chefetz, atribuindo o crescimento às pessoas que "gostam de parecer ricos por uma noite."

"Aqui não é Nova York," disse. "Não é mau gosto gastar dinheiro." De fato, a ostentação parece uma forma essencial - e às vezes divertida - da moeda social em South Beach. Chefetz descreveu o que é conhecido localmente como "o andar de urso polar."

"Você vê homens saindo de Ferraris lentamente, como um urso saindo da hibernação," explicou. "O motor do carro faz barulho e eles demoram um bocado para se levantar. Eles querem ter certeza de que, quando saírem, todos verão a bela garota ao seu lado."

"Faz tudo parte do show," disse. "Pessoas de outras partes do país, é isso que todos querem ver."


 
The New York Times